Pular para o conteúdo principal
Essencial

O que é o sinal de trigger e por que o motor não liga sem ele

A ECU só sabe quando injetar combustível e quando disparar a centelha se ela souber, a todo instante, em que posição o motor está. Quem dá essa informação é o sinal de trigger (também chamado de sincronismo).

Pense num relógio

Imagine que você precisa bater um martelo exatamente às 3 horas, mas não tem relógio — só um amigo gritando "passou o meio-dia!" toda vez que o ponteiro passa por um risquinho no mostrador. O trigger é esse amigo: um sensor lendo os dentes de uma roda dentada (roda fônica) presa no virabrequim, avisando a ECU toda vez que um dente passa. Contando os dentes, a ECU calcula em que ângulo exato o virabrequim está.

Por que sem trigger o motor não pega

Sem saber a posição do virabrequim, a ECU não tem como saber quando o pistão está subindo pra comprimir a mistura nem quando está descendo. Ela simplesmente não dispara nada — sem sincronismo, não sai centelha e não sai injeção, como proteção. É por isso que o primeiro problema a descartar quando um motor "não pega e não dá nem uma tossida" é sinal de trigger ausente ou errado.

A roda dentada e o dente faltante

A maioria dos motores usa uma roda com um número fixo de dentes e um ou mais dentes faltando (um "buraco" no padrão). Esse buraco é o ponto de referência: toda vez que a ECU vê o buraco, ela sabe "agora estou num ponto conhecido do ciclo" e recomeça a contar os dentes a partir dali.

Sensor de comando (cam) — a segunda referência

Um giro completo do virabrequim (360°) não diz se o motor está no tempo de admissão/compressão ou no de escape/exaustão — pra isso, o ciclo completo de 4 tempos precisa de 720°. Um segundo sensor, lendo uma roda no eixo comando de válvulas (que gira na metade da velocidade do virabrequim), resolve essa ambiguidade. Veja em sincronismo do comando de válvulas quando esse segundo sensor é obrigatório.

Nunca tente "adivinhar" o sincronismo

Não existe atalho: configurar o tipo de roda errado, ou ligar os sensores nos pinos trocados, faz a ECU calcular a posição errada do motor. Na melhor das hipóteses o motor não liga; na pior, ele liga com o ponto de ignição completamente errado e pode ser danificado. Sempre confira o tipo de roda fônica contra o que está fisicamente instalado no motor.

Próximo passo

Veja como escolher o tipo de roda fônica correto e como calibrar o offset de ângulo do trigger.


Saiba mais: como a ECU reconhece o "buraco" de verdade

Uma pergunta natural: se a ECU só está contando pulsos do sensor, como ela sabe que um determinado espaço maior entre dois pulsos é o buraco de referência, e não só uma variação de rotação do motor mudando a velocidade com que os dentes passam?

A resposta é que a ECU não olha pro tempo absoluto entre dois dentes — ela olha pra proporção entre o espaço de um dente pro outro comparado com os espaços vizinhos (a "razão do gap"). Se o motor acelera ou desacelera, todos os espaços entre dentes encolhem ou esticam juntos, na mesma proporção — mas a proporção entre um espaço e o vizinho continua praticamente igual. O buraco proposital sempre aparece como um espaço bem maior que a média na mesma proporção, não importa se o motor está girando a 200 RPM na partida ou a 6000 RPM em carga — é por isso que esse método funciona em qualquer rotação sem precisar recalibrar nada.

É esse mesmo princípio de proporção (não tempo fixo) que permite à ECU detectar um sinal de trigger com ruído ou instável: se a sequência de proporções não bater com o padrão esperado da roda configurada, a ECU entende que perdeu a sincronização e para de disparar injeção/ignição até recuperar um padrão válido — mais uma razão pra nunca configurar o tipo de roda errado, porque aí nenhuma proporção nunca vai bater.