Modo de disparo dos injetores: sequencial, semissequencial e simultâneo
Antes de calibrar vazão ou dead time, existe uma decisão mais básica: em que ordem e com que frequência cada injetor dispara por ciclo do motor? Isso depende de como os injetores estão fisicamente ligados (fio único por injetor ou fios compartilhados entre dois) e do que a ECU consegue enxergar do motor (só o virabrequim, ou também o comando de válvulas). Escolher o modo errado pra sua fiação não deixa o motor rodar bem, mesmo com a vazão e o dead time certinhos.
Onde clicar
Combustível → Hardware de Injeção → Configurações de Injeção, painel Configurações dos Injetores → campo Modo.
Combustível → Hardware de Injeção → Saídas dos Injetores — aqui você escolhe, um por um, a qual saída física da ECU cada cilindro está ligado.
As 4 opções do campo Modo
| Opção na tela | O que significa fisicamente |
|---|---|
| Simultâneo | Todos os injetores abrem juntos, várias vezes por ciclo do motor (uma vez pra cada cilindro), cada abertura entregando só uma fração do combustível total. |
| Sequencial | Cada injetor dispara sozinho, uma única vez por ciclo completo do motor (720° em 4 tempos), sincronizado com o momento exato da admissão daquele cilindro específico. |
| Semi-sequencial | Cada injetor dispara duas vezes por ciclo do motor (uma a cada volta do virabrequim), com metade da duração de pulso de cada vez — os injetores costumam estar agrupados em pares que abrem juntos. |
| Monoponto | Só existe um injetor físico, montado no corpo de borboleta, servindo todos os cilindros — não é por cilindro. |
Se você já ouviu falar em injeção "batch", "pareada" ou "fios compartilhados entre dois injetores" — é exatamente a opção Semi-sequencial. É o modo clássico usado antes de sensores de comando de válvulas virarem padrão: dá pra fazer com metade das saídas de potência de injetor (dois injetores por fio, ligados eletricamente em paralelo) ou com um fio dedicado por injetor mesmo — a diferença de fiação não muda o nome do modo, quem decide é como a ECU manda o pulso.
Qual escolher, na prática
- Tem sinal de comando de válvulas (cam/VVT) sincronizado e um fio dedicado por injetor? Use Sequencial — é o modo mais preciso: cada cilindro recebe o combustível bem perto do momento ideal da admissão dele, o que ajuda em resposta a transientes (aceleração rápida) e permite corrigir cada cilindro individualmente.
- Não tem sensor de comando de válvulas, ou os injetores estão ligados em pares (dois injetores num único fio de potência)? Use Semi-sequencial — só precisa do sinal do virabrequim, não do comando. É o modo mais comum em conversões de carburador pra injeção e em motores originalmente batch de fábrica.
- Motor muito simples, com um único bico central em vez de um injetor por cilindro? Use Monoponto.
- Simultâneo hoje é usado quase só em casos muito específicos de hardware legado — na dúvida, prefira Semi-sequencial se não tiver sincronismo de comando.
O modo Sequencial depende de a ECU saber, o tempo todo, em que posição do ciclo de 720° o motor está — isso só é possível com um sensor de comando de válvulas (cam/VVT) sincronizado (ver Sincronismo do comando de válvulas). Selecionar Sequencial sem esse sinal configurado corretamente faz a ECU perder a referência de qual metade do ciclo o motor está, e a injeção sai fora de fase. Se seu sincronismo de comando ainda não está validado, comece em Semi-sequencial — funciona só com o sinal do virabrequim — e migre pra Sequencial depois de confirmar que o sincronismo de comando está 100%.
Saídas dos Injetores: um fio por cilindro, mesmo em modo pareado
Independente do modo escolhido, a tela Saídas dos Injetores sempre mostra um campo por cilindro (Saída Cilindro 1, Saída Cilindro 2..., até o número de cilindros do motor) — você atribui a cada cilindro a saída física da ECU que está ligada a ele. Isso vale mesmo em Semi-sequencial com fiação pareada: se dois injetores dividem o mesmo fio de potência fisicamente, você atribui a mesma saída física para os dois cilindros do par — a ECU já sabe que, nesse modo, injetores no mesmo par disparam juntos.
Só o modo Monoponto esconde as saídas extras (não faz sentido escolher saída por cilindro quando só existe um injetor).
Modo de injeção durante a partida (cranking)
Existe um campo separado pro modo de injeção só durante a partida a frio (cranking):
Partida → Configurações de Partida, painel Fuel → campo Modo
(campo interno crankingInjectionMode, mesma lista de 4 opções).
É comum usar Simultâneo ou Semi-sequencial aqui mesmo que o motor rode em Sequencial depois de partir — nos primeiros giros do motor, antes da ECU conseguir confirmar o sincronismo do comando de válvulas, ela ainda não tem informação suficiente pra fazer sequencial de verdade.
Veja também
- Configuração básica dos injetores
- Como ajustar a vazão dos injetores
- Sincronismo do comando de válvulas
Saiba mais (opcional): por que cada modo dispara desse jeito
Essa parte é só pra quem quer entender a lógica por trás dos números, não é necessária pra fazer o acerto.
Um motor 4 tempos completa um ciclo de admissão a cada 720° de virabrequim (duas voltas completas), mas o sensor de virabrequim sozinho só enxerga 360° — ele não sabe distinguir a primeira volta da segunda sem ajuda do comando de válvulas. É essa limitação física que define o que cada modo consegue fazer:
- Sequencial: dispara 1 vez a cada 720° — precisa saber em qual das duas voltas o motor está, o que só o sinal de comando de válvulas (cam/VVT) resolve. Por isso ele é o único modo que depende desse sensor.
- Semi-sequencial (Batch): dispara 2 vezes a cada 720° (ou seja, 1 vez por volta de 360°, a cada volta), com metade da duração de pulso em cada disparo. As duas metades juntas somam exatamente a mesma quantidade de combustível que um disparo sequencial completo daria — só que espalhada em dois momentos, um dos quais cai fora do tempo ideal de admissão daquele cilindro específico (mas perto o suficiente pra não fazer diferença prática na maioria dos motores). Como ele nunca precisa saber em qual das duas voltas o motor está, funciona só com o sinal do virabrequim.
- Simultâneo: dispara uma vez pra cada cilindro dentro do mesmo ciclo, cada disparo com 1/N da duração total (N = número de cilindros) — na prática, "borrifa" o combustível repetidamente em pequenas doses ao longo do ciclo inteiro em vez de concentrar numa única janela.
- Monoponto: matematicamente igual ao Simultâneo (mesmo número de disparos, mesma fração de duração), simplesmente porque só existe um injetor fazendo o trabalho de todos.
Essa é exatamente a lógica implementada em getNumberOfInjections() e
getInjectionModeDurationMultiplier() na firmware — para Sequencial, 1
disparo com 100% da duração calculada; para Semi-sequencial, 2 disparos com
50% da duração cada; para Simultâneo/Monoponto, N disparos (N = número de
cilindros) com 1/N da duração cada. O resultado final — massa total de
combustível entregue por ciclo — é o mesmo nos quatro modos; o que muda é
só o timing, e é o timing que afeta resposta a transientes e precisão de
malha fechada por cilindro.